quinta-feira, 22 - outubro - 2020

Marujada

De acordo com Moreira (1999, p. 59), “A Marujada se constitui de vários personagens, formando um conjunto de mais de cem elementos que desfilam pelas ruas da cidade, e também de episódios que compõem as partes de sua organização. Os personagens são representados por duas hierarquias. Uma que se aproxima da hierarquia que organiza a tripulação de um navio de marinha (composta somente de homens), que é a Marujada, e uma outra hierarquia de títulos de nobreza (composta também por mulheres), que é o Reinado. As partes de sua organização são etapas onde os personagens atuam durante a Festa de Nossa Senhora do Rosário.”

Sendo parte principal e razão de existir a Festa de Nossa Senhora do Rosário (Festa de Agosto) (a qual ocorre em Rio Preto nos dias 14 a 17 de agosto), entendemos que a Marujada, portanto, é uma manifestação cultural de natureza religiosa, constituída de vários personagens (homens, mulheres e crianças que formam a Marujada*, o Reinado e agregados do Reinado), organizada em partes ou etapas (o ensaio, a alvorada, o cortejo, etc.), que eclode anualmente na cidade de São Gonçalo do Rio Preto, a partir de 29 de junho (quando começam os ensaios da Marujada), movida pelo incessante cumprimento de promessa feita a Nossa Senhora do Rosário, em decorrência de ter a Senhora atendido um pedido de salvação dos escravos (o mito de origem da Marujada, veja adiante). Os seus personagens tocam, cantam, dançam, desfilam e encenam pelas ruas da cidade e nas portas e quintais de casas previamente acertadas, principalmente nos dias 15 e 16 de agosto, quando ocorrem episódios de quase todas as partes de sua organização.

Conforme Moreira (1999, p. 58), “A Marujada do Rio Preto existe aproximadamente há 200 anos, segundo os colaboradores.”

Note que o vocábulo “Marujada”, na cultura riopretana, pode significar três coisas:

  • a própria cultura Marujada (constituída pela Marujada*, pelo Reinado, pelos agregados do Reinado e pelos episódios que compõem as partes de sua organização);
  • o conjunto de personagens da Marujada*, do Reinado e agregados do Reinado;
  • (*Marujada:) o corpo de dançarinos, músicos e cantores (isto é, o patrão, o contramestre, o piloto, etc.).

Os personagens da *Marujada são: o patrão, o contramestre, o piloto, o mar de guerra, os embaixadores, o guarda de reinado, o porta-bandeira (ou alferes bandeira), os caixeiros, o guia, o contraguia, os marujeiros, os calafatinhos e o responsável pelos calafatinhos (Moreira, 1999, p. 59).

Os personagens do Reinado são: o rei, a rainha, o prior, a priora, o príncipe, a princesa, o conde e a condessa (Moreira, 1999, p. 60).

Os agregados do Reinado são: a juíza, os homens, as damas e os casais de crianças (Moreira, 1999, p. 60).

As partes da organização da Marujada são: o ensaio, a alvorada, o cortejo, a missa, o levantamento de mastro, a embaixada, a coroação, a alimentação, a posse dos novos festeiros, a rezinga, o show, a joia, a celebração à Santa e o arreamento de mastro (Moreira, 1999, p. 60).

Mito de Origem

“De acordo com o mito de origem relatado, a Marujada começou em uma travessia marítima numa frágil embarcação que trazia negros para o Brasil, no período da escravidão, vindos de Portugal. Durante uma tempestade, o barco ficou preso perigosamente em recifes, e os marujos que saíam do barco para livrá-lo daquela situação não retornavam jamais. Então os negros fizeram uma promessa a Nossa Senhora do Rosário: se o barco atingisse a terra firme eles dançariam e coroariam uma família em homenagem à Santa (Nonô – José Raimundo de Almeida). Imediatamente apareceu uma luz vinda do céu, que iluminou a embarcação, e milagrosamente o barco se livrou das pedras e seguiu o seu rumo. Assim, quando os negros desembarcaram em terra firme, eles cumpriram a promessa. Cantaram e dançaram em louvor a Nossa Senhora do Rosário (Jésus – José de Jesus Nunes)” (Moreira, 1999, p. 57).

“Segundo Nonô, o homem que fez a promessa a Nossa Senhora do Rosário disse que quando chegasse em terra firme coroaria toda a sua família. ‘João de Anjo (ex-patrão da Marujada), que era um homem muito inteligente, foi quem me contou essa história’. Seguindo essa tradição, a Marujada festeja a cerimônia de coroação de seu reinado com rotatividade anual. Ou seja, a cada ano são recolhidos novos elementos que compõem o reinado” (Moreira, 1999, p. 57).

Casa do Rei e Casa da Rainha

A Marujada é tão importante para o povo riopretano que ela tem até mesmo construções físicas dedicadas à realização de algumas partes de sua organização: a Casa do Rei e a Casa da Rainha, construídas pela Prefeitura Municipal.

Se quiser, veja:

Marujada 2015;

Marujada 2016;

Marujada 2017;

Marujada 2018;

Marujada 2019.

CONSULTAS E REFERÊNCIAS

MOREIRA, Alexandre Magno Guiamares. A Marujada Navegando pelas Ruas do Rio Preto – Etnografia de uma Festa Religiosa. Dissertação como requisito parcial para obtenção do grau Mestre em Música na área de Musicologia. Rio de Janeiro: Conservatório Brasileiro de Música, 1999.

[Editado em 1-10-2019.]

Sobre Diego Emanuel

Riopretano, poeta e programador. Acredita que o mundo melhor começa em nós mesmos, e que será construído com cada ser humano pensando o bem a qualquer outro – caminho para a felicidade individual -, com educação, trabalho que liberta e automação.

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